Ouvi hoje (29/04/2011) a mensagem da Presidenta Dilma para o Dia do Trabalhador. Impecável. Um tanto além do que eu esperava dela. Manter a estabilidade democrática e o Estado de Direito (são praticamente a mesma coisa), fortalecer a economia, investir na formação técnica dos jovens, e ao mesmo tempo enfrentar a grande vergonha nacional que é a miséria de milhões de brasileiros, que vivem sem a chance de compartilhar nossa riqueza. Eu teria escrito esse discurso, e me ufanaria de tê-lo escrito, vinte ou trinta anos atrás... explico:
Deixar para trás a miséria é o sonho de dezenas de milhões de brasileiros, mas não é tudo o que podemos fazer para que nos país seja melhor. Aliás, eliminar a miséria é um simples dever moral, o dever de casa que deveríamos ter cumprido há décadas! Podemos sonhar muito mais alto. Podemos realizar novos paradigmas de civilização.
A linha de governo da Presidenta Dilma talvez possa ser considerada inovadora, porque (ao menos parece) vai um tiquinho mais fundo que o Presidente Lula nas estratégias de distribuição da riqueza. Os avanços são cautelosos com razão. Qualquer coisa como, por exemplo, uma reforma agrária semelhante à que a França realizou no século XIX acordaria dragões terríveis que tiram sua fumegante soneca no peito de certos “pais da pátria” brasileiros.
Mesmo sem ser especialista nessa história, arrisco dizer que o Partido dos Trabalhadores no governo federal utiliza uma espécie de versão do paradigma de Darci Ribeiro e outros da “esquerda” brasileira de meio século atrás. Em dois rabiscos, a história é mais ou menos a seguinte: nos anos 1950 e 1960, surgiam e floresciam no Brasil ideologias “de esquerda”, lastreadas em termos gerais na idéia de fortalecimento da economia nacional numa direção distributivista. Chamando menos a atenção, floresciam também teorias “de direita”, entre elas a “geopolítica” criada nos anos 1940 nas universidades inglesas e norte-americanas, que teve como principal figura no Brasil o General Golbery do Couto e Silva, e como chairman (da ditadura) o professor-ministro Delfim Neto, aquele do “vamos primeiro fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo”. Corrija-me quem puder.
Em 1964, quando pela primeira vez chegava ao poder um político “de esquerda”, João Goulart, que começaria por implantar na prática idéias como as de Darcy Ribeiro, o golpe político dos militares, com apoio de certos setores civis, inverteu a direção política do país. E seguiram-se quatro décadas de governos alinhados com a “geopolítica” yankee, na qual “quem pode, pode, e quem não pode se sacode”, porque ricos são simplesmente pobres que lutaram e tiveram sucesso, e os pobres são “ricos fracassados”.
A tese da PRIORIDADE ABSOLUTA PARA A EDUCAÇÃO, ou a versão palatável da VERDADEIRA PRIORIDADE PARA A EDUCAÇÃO, que pretende ser “mais prática”, segue um paradigma completamente diferente do senso comum “oficial” brasileiro.
Quando o governo federal diz que vai “eliminar a miséria absoluta e fortalecer a classe média, e implanta políticas públicas distributivistas, seu paradigma é o da sociedade de consumo, pelo qual se procura satisfazer as necessidades humanas com base na riqueza material. Desse ponto de vista, não é importante dar muita ênfase à Educação. Não é necessário gastar com a escola pública mais que o mínimo suficiente para alfabetizar e tornar o jovem apto para o mercado de trabalho.
Esse mínimo garante a cidadania e a inserção do indivíduo na vida econômica, mas não abre perspectivas para formas alternativas de felicidade. Não liberta o indivíduo dos limites do mercado de trabalho convencional, das relações de trabalho vigentes, das relações de consumo em voga. Não abre perspectivas para uma nova civilização baseada na trilogia da liberdade, igualdade e fraternidade, acrescida de paz, saúde e prosperidade numa perspectiva multicultural e com preservação do planeta.
O investimento intenso no sistema de educação formal tem vários exemplos mundo afora, nos últimos duzentos anos. Dois deles, mais recentes, são o exemplo japonês e o caso comum das economias florescentes asiáticas da atualidade (China, Coréia do Sul etc.). Após a derrota na Segunda Guerra Mundial, os japoneses trataram de reconstruir-se como nação moderna e se dedicaram de corpo e alma às atividades escolares. Enquanto o restante do mundo gravitava em torno de Estados Unidos e União Soviética, dois pólos der poder em “guerra fria”, ambos invertendo considerável energia nos seus sistemas de educação formal, cada um ao seu modo, os japoneses humilde e silenciosamente estudavam “nas horas de folga”, numa escala sem precedentes. Qualquer japonês que soubesse alguma disciplina era professor, todos os outros eram alunos. Qualquer sala, salão, garagem, barraco ou telheiro podia ser uma sala de aula. Em trinta anos eles se tornaram a economia mais próspera do planeta e ameaçaram a hegemonia dos EUA.
Hoje, são notórios os exemplos da China, Coréia do Sul e outras economias “emergentes” do leste asiático, onde o sistema educacional absorve uma parte considerável dos recursos públicos e particulares.
No entanto, não é essa a prioridade para a educação que defendo. Não defendo sistemas de adestramento de jovens para mercados de trabalho competitivos. No Japão, as escolas chegam a ser uma espécie de monastérios da competitividade tecnológica, fenômeno que já merece a atenção dos estudiosos, por serem (em tese) exemplos nocivos de excessiva pressão sobre os jovens.
Quando falo em VERDADEIRA PRIORIDADE PARA A EDUCAÇÃO, defendo um sistema pluralista de oferta de conhecimentos. Falo de uma nação inteira empenhada em desencadear uma revolução cultural pacífica, amigável, branda. Falo de abdicar de parte substancial do “padrão de consumo” para oferecer aos filhos e netos – todos os jovens de 06 a 18 anos – duas mil horas (2.000) anuais de aulas convencionais, e atividades esportivas, artísticas, profissionalizantes e de todo o tipo que interesse à formação de um jovem, em escolas “de primeiro mundo” de tempo integral.
Quando a Presidenta Dilma proclama a meta de criar duzentas e cinquenta (250) novas escolas técnicas federais, entre outras medidas de apoio ao trabalhador brasileiro, para que ele tenha acesso ao mercado de trabalho e supere a miséria, ou se fortaleça como cidadão de classe média, ela anuncia um tímido projeto educacional à chinesa.
Quando defendo uma VERDADEIRA PRIORIDADE PARA A EDUCAÇÃO, refiro-me a uma política de educação formal que compreenda da alfabetização o vestíbulo das universidades, e que busque a multiplicação do conhecimento existente no planeta, para que cada aluno tenha a oportunidade de efetivamente adquirir os recursos mentais necessários e suficientes para escolher o modelo de felicidade que lhe convier. Em outras palavras, educação para todo jovem alcançar um grau de cultura “nivelado por cima”.