Escola educa, mesmo que não queira educar. É impossível a escola não influenciar a vida futura de um jovem que a ela frequenta.
No sentido estrito, a escola deseduca, caso não queira educar, ou seja, quando procura omitir-se ao papel formadora da personalidade das pessoas .
Talvez ao leitor pareça estranha esta reflexão, visto que para tantos brasileiros não há dúvidas sobre o papel da escola na formação dos jovens. Aliás, para o leigo não há diferença entre ensinar e educar, e portanto o papel da rede de ensino (pública ou particular) para ele é ensinar os conteúdos e ao mesmo tempo preparar os jovens para a vida. No entanto, para a lei, para os programas de governo – nos quais está escrito quanto e como se gasta o dinheiro da “Educação” –, ENSINAR é diferente de EDUCAR, e a diferenciação tem razões técnicas e também propósitos políticos.
Na atualidade não se ouve ninguém discutindo sobre isso, mas já passa da hora de colocar certos pingos nos respectivos “is”. Por quê? Simplesmente porque estamos “no fundo do poço” da má qualidade na rede pública de ensino, graças às várias décadas de progressivo abandono da PRIORIDADE PARA A EDUCAÇÃO, e, ao mesmo tempo, vemos que nosso governo central está redefinindo sua política educacional.
Essa história vem de longe.
Cerca de vinte anos atrás, fui até a Secretaria da Educação do Estado do Paraná a fim de colher dados para uma matéria de revista sobre um programa “inovador” de motivação dos professores da rede pública estadual e de “investimento na qualidade” da Educação. Infelizmente não consegui redigir e publicar a matéria, mas aprendi muito. Ouvi de uma importante educadora que para o governo daquele estado já estaria bom se as escolas públicas conseguissem transmitir aos alunos aqueles conteúdos programáticos mínimos previstos em lei. Dadas as circunstâncias, seria um luxo esperar que a rede pública “educasse” os alunos.
Lembro-me também que certo dia, por aquela época, para fazer a prova de um concurso público entrei em uma escola estadual da cidade de Curitiba, e fiquei enojado com o estado de conservação do prédio: carteiras destroçadas, lousa descascada, tacos de madeira no piso descolados e encardidos de sujeira, iluminação pela metade, vidros quebrados nas janelas, camadas arqueológicas de cocô de pombo nos beirais das janelas. Pensei: “como pode um aluno desta escola acreditar que tem um futuro, se é tratado como o micróbio da mosca do cocô do cavalo do bandido?” AMBIENTE É INFORMAÇÃO, e informação educa. Ou deseduca. INFORMAÇÃO: In (dentro) + forma + ação = formar a mente do receptor da mensagem.
Naquela época, eu estava subempregado e meus filhos frequentavam a escola pública. Curitiba já tinha a fama de “cidade de primeiro mundo”, e com razão, por muitos motivos. Mas nem tudo eram floreiras de tagetes e calêndulas. Ouvia-se muito sobre o papel dos pais na educação dos filhos, responsabilidade que não pode ser transferida para a escola. E eu me sentia culpado por não saber ser um “pai presente” na evolução escolar dos meus filhos. Não conseguia sentar com eles, à noite, conferir o que haviam aprendido naquele dia e ajudá-los a fazerem as lições de casa etc. Penso nisso sem parar, desde aquela época, mas hoje estou convencido: a responsabilidade não era só minha e da minha mulher, da mesma forma que os méritos do que meus filhos possuem de bom pertencem em grande parte aos professores que, dentro de uma rede pública em decadência, conseguiam ensinar algo de bom para eles e participaram de sua educação, de alguma forma.
De igual forma, atribuo em grande parte minhas virtudes e meus defeitos aos professores e diretores que foram importantíssimos na minha educação, 40, 50 anos atrás, quando a escola ainda era “risinha e franca”. Eu não seria hoje metade do que sou sem as três escolas daquela cidadezinha lá do interior de Santa Catarina, onde fui tratado como um ser humano que se preparava para a vida.
Acabo de entreouvir na televisão uma educadora falando sobre o papel da escola (dos educadores, obviamente) na superação do trauma recentemente vivido pelas crianças da região serrana do Rio de Janeiro. Explicou a educadora, para a repórter, que a escola serve às crianças como uma referência importante para as suas vidas.
A frase funcionou como o clique de interruptor que acende a luz. De repente, tudo ficou muito claro.
O que é mais importante para uma criança? O lar, em primeiro lugar, a escola, em segundo, a igreja, quando a família é muito religiosa. O mundo é restante, que está fora dessas três referências. Calma, leitor, não precisa gritar que o shopping center para grande parte dos jovens brasileiros é hoje mais importante que a igreja, mais que a escola e até mais que o lar, às vezes. Pode ser verdade, para muitos brasileiros. Mas devemos nos conformar com isto? Isto é uma a realidade pura e simples, e nos rendemos à inversão dos valores? Que educação proporcionam aos jovens o shopping center, ou o videogame, ou qualquer outra instituição da sociedade de consumo? Ou a Internet?
Na hora de definir a política educacional para uma governo, EDUCAR significa induzir comportamentos, e ENSINAR significa selecionar e transferir conteúdos (História, Geografia, Matemática, Língua Portuguesa etc.).
Quando o Ministério da Educação e Cultura define como agirão diretores, professores e todos os demais funcionários da rede pública de escolas, define também se os 45 milhões de jovens brasileiros receberão EDUCAÇÃO ou apenas ENSINO PÚBLICO. O Brasil recebe verbas de órgãos internacionais (ONU, em especial) para aplicar na sua “Política Educacional”, mas para receber o dinheiro deve submeter-se a certas exigências, como, por exemplo (e principalmente), atingir certa taxa de transferência de conteúdos aos alunos. Foi assim que surgiu a tal da aprovação automática, ou compulsória, ou seja, a regra pela qual nenhum aluno (em tese) pode ser reprovado, essa história que deu margem para a derrocada atual da nossa política educacional oficial.
Esqueceu-se que não existe escola que ensina mas não forma a personalidade dos alunos. Não é possível ensinar sem também educar, porque é impossível a um jovem não aprender nada além das matérias quando vive tanto tempo dentro de um ambiente escolar.
Se dizemos a um aluno “Aprenda o que você tem que aprender e o restante virá por acréscimo”, estamos na prática dizendo a ele: “Para nós, você é mão-de-obra, bucha-de-canhão para o mercado de trabalho; trata de se virar ou você vai se f... na vida”.
Se dissermos ao aluno “Aprenda pela manhã o mais que puder desse conteúdo, e à tarde venha praticar esporte, participar da banda, do grupo de teatro, da oficina de artes, do curso de tipografia, da oficina de artesanatos, do laboratório de informática, da limpeza da escola, da cozinha e do refeitório, do cultivo da horta e do jardim (é preciso que a escola tenha uma horta e um jardim!), pois assim você vai desenvolver habilidades, criatividade, noções de realidade...”, então estaremos dizendo a ele: “meu filho, meu neto, você é um cidadão brasileiro, eu o amo, aproveite a chance de aprender para a vida, que a vida retribuirá na proporção do que você semear agora”.
Pais e mães não podem transferir para a escola (pública ou particular) a sua responsabilidade educadora. Mas podem esperar da escola que ensinem aos seus filhos o que eles próprios não sabem. Afinal, escola é creche de marmanjos para “quebrar um galho”, ou uma instituição milenar criada para para acrescentar conhecimentos às sociedades? Se a responsabilidade é só dos pais, escola não é necessária. Não se gaste esse dinheiro público. Mas, se não há escolas, que progresso pode uma nação esperar?
Para um pai ou mãe acompanhar a vida escolar dos filhos é preciso que ele saiba como fazê-lo. Se nunca aprendeu, a responsabilidade sobra para a escola. E a qualidade do futuro dos nossos filhos e netos depende do quanto investirmos na sua EDUCAÇÃO. Em casa e na escola, mas principalmente na escola.
(23 de abril de 2011)
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